Detectar que uma obra está gastando mais que o previsto é o primeiro passo. O segundo, e mais útil, é saber por quê. A análise de desvios decompõe cada estouro de custo em duas causas: pagou-se mais caro (desvio de preço) ou usou-se mais quantidade (desvio de consumo).

Cada causa tem responsáveis e soluções diferentes, por isso convém separá-las.

As fórmulas

Para um recurso ou item:

  • Custo previsto (para o executado) = consumo previsto × preço previsto
  • Custo real = consumo real × preço real
  • Desvio total = custo real − custo previsto

E se decompõe em:

  • Desvio de preço = (preço real − preço previsto) × consumo real
  • Desvio de consumo = (consumo real − consumo previsto) × preço previsto

A soma de ambos é exatamente o desvio total.

O consumo previsto não é o do orçamento completo, e sim o que corresponde ao que foi realmente executado: quantidade executada × índice de consumo previsto. Comparar com o orçamento total é um erro muito comum.

Exemplo: concreto HA-25

Dados:

  • Concreto executado (medição): 350 m³
  • Índice previsto: 1,05 m³ de concreto por m³ executado (5% de perdas)
  • Consumo previsto = 350 × 1,05 = 367,5 m³
  • Consumo real (notas de entrega): 380 m³
  • Preço previsto: € 85/m³
  • Preço real: € 88/m³

Cálculo:

  • Custo previsto = 367,5 × 85 = € 31.237,50
  • Custo real = 380 × 88 = € 33.440,00
  • Desvio total = +€ 2.202,50 (desfavorável)

Decomposição:

  • Desvio de preço = (88 − 85) × 380 = +€ 1.140,00
  • Desvio de consumo = (380 − 367,5) × 85 = +€ 1.062,50

Verificação: 1.140,00 + 1.062,50 = € 2.202,50. ✔

Pouco mais da metade do estouro vem do preço (52%) e o restante do consumo (48%): há dois problemas distintos a resolver.

Como agir sobre cada desvio

Desvio de preço

Causas habituais:

  • Preço do orçamento desatualizado ou tirado de um banco de preços genérico.
  • Compras sem comparar propostas ou pedidos urgentes.
  • Altas de mercado não cobertas por reajuste de preços.
  • Adicionais não previstos (bombeamento, horário noturno, aditivos).

Ações:

Desvio de consumo

Causas habituais:

  • Escavação excessiva ou fôrmas deficientes que aumentam o volume de concreto.
  • Perdas, quebras e furtos de material.
  • Erros de medição ou de pedido.
  • Produtividade da mão de obra pior que a prevista. Veja produtividade da mão de obra na construção.

Ações:

  • Controlar o recebimento das notas de entrega e sua apropriação aos itens.
  • Revisar a execução (locação, fôrmas, estoques).
  • Melhorar o planejamento de pedidos e o armazenamento.

Desvios em mão de obra e empreiteiros

A mesma lógica se aplica a outros recursos:

  • Mão de obra: preço = custo horário; consumo = horas por unidade.
  • Empreiteiros: preço = preço unitário contratado em relação ao orçado; consumo = medição certificada em relação à executada (por exemplo, excessos de medição).
  • Equipamentos: preço = tarifa horária; consumo = horas de uso por unidade produzida.

Do item ao relatório mensal

Um bom relatório de desvios:

  1. Ordena os itens pelo valor do desvio (não pela porcentagem).
  2. Mostra preço e consumo separadamente.
  3. Indica se o desvio é pontual ou recorrente (se vai se repetir no que falta).
  4. Atribui uma ação e um responsável.

Integrado à análise de valor agregado, explica o CPI da obra e alimenta a previsão de custo final.

Perguntas frequentes

Por que o desvio de preço é calculado com o consumo real?

Por convenção: assim a soma dos dois desvios coincide exatamente com o total, e o de consumo é valorado ao preço previsto, sem se misturar com o efeito do preço.

O que faço se não tenho o consumo real por item?

Comece pelos recursos de maior valor (concreto, aço, principais empreiteiros) e apropie suas notas de entrega aos itens. Veja como controlar os custos de uma obra.

Conclusão

Separar o desvio de preço do desvio de consumo transforma um "estouramos" em um diagnóstico concreto, com responsáveis e ações. É a ferramenta mais prática para proteger a margem item a item.

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